O Agronegócio

 
Antigamente, tudo era rural. Os agricultores dominavam a economia. Depois, na Idade Média, surgiram as primeiras cidades.

Iniciou-se, assim, a divisão do trabalho entre o rural e o urbano, intermediado pelo comércio de alimentos e matérias-primas.
 
Industrialização

Com a industrialização, acentua-se a diferença entre o mundo urbano e o rural. Os agricultores abrem novas áreas, especializam-se, ganham produtividade.

Saciadas pelo homem da terra, desenvolvem-se as metrópoles. A cidade cresce alimentada pelo campo.
 
Fome

A disponibilidade mundial per capita de alimentos aumentou 40% entre 1950 e 1985, contrariando a teoria de Malthus. Esta dizia que a população se elevaria em  progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos cresceria em progressão aritmética.

Hoje os economistas provam que a fome mundial, que afeta 1 bilhão de pessoas, depende da insuficiência de renda, e não da produção agrícola. Sem dinheiro no bolso, falta comida na mesa.

Cadeias produtivas

A industrialização tornou a economia mais complexa. Surgiram as agroindústrias. Com o avanço tecnológico, a enxada perdeu lugar para o trator, e o esterco foi trocado pelo fertilizante.

O produtor rural perdeu o isolamento. Antes da produção, depende da indústria de insumos e máquinas. Depois da colheita, enfrenta o mercado do processamento. Nascem as cadeias de produção.

Êxodo rural

Em 1960, o Brasil ainda tinha a maioria da população (54,9%) morando no campo. Mais tarde, o êxodo rural inverteu o perfil da moradia. Em 1970, a população rural já era minoria, com 44,1%.

A queda continuou em 1980 (32,4%), 1990 (24,4%) e 2000 (18,8%). Hoje, estima-se que a população rural esteja em 17%.

O forte êxodo rural esvaziou o campo, inchou as cidades e exigiu melhorias no abastecimento popular, dominando a fase capitalista da agropecuária.

Agronegócio

Há cinquenta anos, os norte-americanos inventaram o conceito de agribusiness. no Brasil nos anos 1980, o termo foi traduzido para "agronegócio", exigindo a integração produtiva.

O PIB do agronegócio brasileiro reparte-se assim: 7% gerado "antes" da porteira das fazendas; 27% corresponde à produção agropecuária propriamente dita, "dentro" da fazenda; o restante, 66%, encontra-se "após" a porteira das fazendas.

Exportação

As exportações totais oriundas do agronegócio somaram, em 2008, 71,9 bilhões de dólares, representando 36,3% das exportações nacionais.

Em 2003, o agronegócio mostrou sua melhor participação nas exportações do país, com 44% das exportações totais.

O superávit externo do agronegócio fechou em 60 bilhões de dólares. O agronegóio paga as contas externas do país

Censo Agropecuário

O Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirma o crescimento da agricultura familiar, cujas unidades passaram de 4,1 para 4,5 milhões. Significam agora 88% do número total de estabelecimentos agropecuários do país. A força do pequeno.

Existem no Brasil, segundo o IBGE, 5.204.130 estabelecimentos rurais, ocupando uma área de 354,8 milhões de hectares. Comparado com dez anos atrás, houve um acréscimo de 7,1% no número de estabelecimentos rurais.

 Em 1980, a área média dos estabelecimentos rurais era de 70,7 hectares. Em 2006, diminuiu para 68,2 hectares.

Estabelecimento rural

Segundo o IBGE, "estabelecimento agropecuário é toda unidade de produção dedicada, total ou parcialmente, a atividades agropecuárias, florestais e aquícolas, subordinada a uma única administração: a do produtor ou a do administrador. Independente de seu tamanho, de sua forma jurídica ou de sua localização, tendo como objetivo a produção para subsistência e/ou para venda, constituindo-se assim numa unidade recenseável".

O Censo Agropecuário (IBGE) de 2006, se comparado com o de 1996, mostra que houve redução de 8,5% no pessoal ocupado em estabelecimentos agropecuários, caindo de 17,9 milhões para 16,4 milhões de pessoas. Mesmo assim, a agropecuária ainda emprega 37% dos trabalhadores brasileiros.

As lavouras temporárias empregam 35,6% da mão de obra rural no Brasil, seguidas da pecuária (27,5%) e das lavouras permanentes (17,6%). O restante se distribui em atividades mistas ou especializadas.

Os médios e grandes agricultores, não enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), representam apenas 7,8% do total, mas respondem por 51,7% do valor da produção rural.

Em 2006, os agricultores familiares respondiam por 40% do valor da produção agropecuária, contra 37,9% em 1996. Incluindo os membros da família, o segmento familiar absorve 13 milhões de pessoas, ou seja, 78,8% do total da mão de obra ocupada no campo.

 Dos minifúndios, 65,3% (os que possuem menos de 10 hectares) localizam-se no Nordeste. Em geral, têm baixíssima produtividade, suficiente apenas para a subsistência familiar.
 
Florestas nativas

O Brasil ainda mantém preservados 517 milhões de hectares com florestas nativas, representando 60,7% do território nacional. Das florestas originais remanescentes no planeta, 28% estão no Brasil.

O desflorestamento alcança 17% da Amazônia Legal, representando já 70 milhões de hectares.

 O Cadastro Nacional de Florestas Públicas aponta a existência de 211 milhões de hectares protegidos pelo Estado, cerca de 25% do território nacional. A área inclui unidades de conservação federal (77,3 milhões de hectares), florestas sob uso sustentavél e terras indígenas. A maioria (94%) fica na região Norte.

 Florestas plantadas

Existem ainda 6,6 milhões de hectares plantados com florestas, especialmente de pínus e eucalipto. Excluindo a Floresta Amazônica, supõe-se existir 71 milhões de hectares ainda exploráveis no país. Nenhum lugar do mundo apresenta tal potencial produtivo.

Cerrado

O bioma Cerrado, considerado "primo pobre" da Amazônia, detém um terço da biodiversidade brasileira. Uma grande riqueza genética.

O Cerrado se distribui por 207 milhões de hectares, sendo, pelo menos, 100 milhões cultiváveis. Atualmente existem 78,5 milhões de hectares ocupados, sendo 61 milhões com pastagens, 14 milhões com lavouras anuais e 3,5 milhões com culturas perenes e florestais.

As áreas do Cerrado respondem por 60% da soja, 59% do café, 45% do feijão e 44% do milho produzido no país. Na pecuária, a região contribui para 55% da carne bovina brasileira.

Potencial agrícola

Estima-se que 388 milhões de hectares de terras do Brasil (45,6% do território) sejam férteis, passíveis de uso agropecuário. Atualmente, 76,7 milhões já se encontram com lavouras, permanentes e temporárias, enquanto outros 172,3 milhões de hectares são ocupados com pastagens para o gado.

Índios

As reservas indígenas brasileiras somam 107 milhões de hectares, 48,6% mais que as terras cultivadas na agricultura.
  
Rações

O milho é o cereal mais utilizado em rações, apresentando 8% de proteína. A soja é bem mais proteica (45%), mas apresenta elevado teor de óleo, o que prejudica a mistura. Utiliza-se também farelo de algodão e sorgo.

O volume comercializado de rações no Brasil soma 53,4 milhões de toneladas (2007). A criação de aves consome 56%; de suínos, 25%; a produção de leite, 8%; e a de carne bovina, 4%.

Pets

O setor de pets (animais de estimação) é o mercado que mais cresce no Brasil, já atingindo 3,4% da fatia nacional.
 
Palatável

As rações para animais compõem-se principalmente de farinha de carne ou de peixe, com elevado teor de proteína (60%), misturada com grãos e cereais. Estes complementam o valor nutritivo e oferecem palatabilidade ao produto.

Proibido

Dejetos de aves, especialmente frangos de corte, misturados com casca de amendoim, sabugo de milho picado ou cavaco de madeira sempre foram, no Brasil, utilizados como ração para gado.

Seu valor proteico advém da uréia excretada pelas aves junto com as fezes, ricas ainda em restos de ração, milho principalmente. Depois do problema da "vaca louca", esse tipo de ração acabou proibido.

Agrotóxicos

A lavoura de soja, sozinha, é responsável por 40% do consumo nacional de agrotóxicos (2008). Depois seguem cana-de-açúcar (12,4%), milho (9,5%), algodão (9,5%), café (4,3%) e cítrus (3,8%).

As vendas internas de defensivos agrícolas somaram 7,3 bilhões de dólares em 2010.

O uso de defensivos no Brasil é elevado devido a sua condição de país tropical, com pragas e doenças maiores que os países de agricultura temperada. Fazer duas safras por ano também eleva a quantidade de insumos por área.

Consumo

Os produtores nacionais gastaram em média US$ 7,39 por tonelada de produto agrícola gerado em 2009, contra US$ 9,42 dos norte americanos, US$ 2,12 dos russos, US$ 12,44 dos argentinos, US$ 20,65 dos europeus.

O recorde no consumo de agrotóxicos no Brasil ocorreu em 2006, com a venda de 718.836 toneladas. As importações de agroquímicos são significativas, despendendo 2,65 bilhões de dólares em divisas.

Cooperativismo

Existem 1.544 cooperativas agropecuárias no país, agregando 880 mil produtores rurais segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).

A participação do setor cooperativista no PIB agropecuário totaliza 38,4%, com exportações de 3,3 bilhões de dólares.

A força cooperativista reside nos pequenos, que, unidos, ficam fortes: 81% dos cooperados possuem até 100 hectares.

Dívidas rurais

O endividamento da agropecuária, somando-se recursos oficiais e privados, alcança 55% do PIB setorial. O valor inclui débitos securitizados desde 1995/2006 e empréstimos recentes, atingindo, no mínimo 87,5 bilhões de reais.

 Máquinas agrícolas

O Brasil exporta 26 mil tratores e colheitadeiras, gerando receita cambial de 2,1 bilhões de dólares. Nas máquinas e implementos (pulverizadores, plantadeiras etc.), as exportações somam 685 milhões de dólares.

Herbicidas

Os herbicidas são os agrotóxicos mais consumidos no Brasil, com participação de 46%, seguidos dos inseticidas (28,7%), dos fungicidas (21,2%) e outros (4,8%).

Fertilizantes

As lavouras de soja (34%), milho (19%), cana-de-açúcar (14%), café (6%), algodão (5%) e arroz (3%) são as maiores consumidoras de adubos químicos, respondendo por 78% do consumo nacional.

O consumo nacional de fertilizantes soma 22 milhões de toneladas. Nos estados, São Paulo lidera (17%), seguido de Mato Grosso (15%) e Minas Gerais (14%).

O Brasil importa 65% do fertilizante que utiliza, ao custo anual de 4,7 bilhões de dólares (2007). A maior escassez está no cloreto de potássio, cuja importação da matéria-prima atinge 88%; no nitrogênio, a importação representa 63%; no fósforo, cai para 41%.

 Certificação

O Ministério da Agricultura desenvolve um rigoroso programa de certificação da fruticultura nacional, chamado PIF (Programa Integrado de Fruticultura), imprescindível na exportação de frutas in natura.

Orgânicos

Os alimentos orgânicos foram regulamentados por meio do Decreto no 6.323/2007, baseado na Lei no 10.831/2003.

A produção orgânica no Brasil ocupa 841 mil hectares, incluindo as pastagens certificadas. Existem 19 mil propriedades rurais, número liderado pelo Paraná (4,1 mil) e Rio Grande do Sul (4,5 mil).

A fruticultura orgânica ocupa 26% da área cultivada com orgânicos, seguida pelo cultivo da cana-de-açúcar, com 23%.

Plantio direto

O plantio direto é uma técnica que revolucionou a agricultura nacional, desenvolvida desde 1971 e fortemente aplicada na década de 1990.

O pioneiro no Brasil foi o agricultor paranaense Herbert Bartz, que realizou o plantio sem arar nem gradear o terreno. A cobertura morta cobre o solo, melhora a fertilidade e combate a erosão.

Atualmente 25 milhões de hectares (55%) são cultivados com plantio direto no país.

Amazônia Legal

A Amazônia Legal engloba 510 milhões de hectares, 61% do território nacional. Mas o bioma Amazônia, que acolhe a floresta tropical úmida, representa 419 milhões de hectares, ocupando 49% do país.

O primeiro conceito é geográfico, somando nove estados, estabelecido na época do governo militar. O segundo é ecológico e engloba apenas a Hiléia.

Vivem na Amazônia Legal 23,5 milhões de pessoas - 13% da população brasileira.
 
Sisbov

O Brasil obriga os frigoríficos exportadores de carne bovina a somente abaterem gado inscrito no Serviço de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos (Sisbov), sistema oficial controlado pelo Ministério da Agricultura.

Tratores

Diminuiu o tempo de uso dos tratores nacionais. Em 2000, a idade média da frota era de 15 anos. Agora caiu para 10 anos. Funcionam na agricultura 788 mil tratores.

Entre as décadas de 1960 e 1970, os novos conhecimentos agronômicos, contando com o melhoramento genético, provocaram enormes transformações na agricultura  mundial, melhorando sobremaneira a produtividade das lavouras.

Safra

A safra de grãos, cultivada anualmente, atinge 145,8 milhões de toneladas (2008), em área plantada de 47,42 milhões de hectares. Soja e milho respondem por 75% das lavouras temporárias no Brasil.

Transgênicos

O plantio (safra 2008/2009) indica que as lavouras geneticamente modificadas ocupam no Brasil 15,8 milhões de hectares, sendo 14 milhões plantados com soja, 1,4 milhão com milho e 400 mil hectares com algodão.

População rural x urbana

Em meados de 2007, a população urbana da Terra ultrapassou a rural. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), em 2003, 48% da população mundial ainda vivia em áreas urbanas.

O relatório da ONU informa que a população urbana, que era de 3 bilhões em 2003, será de 5 bilhões em 2030. No mesmo ano, a população rural atingirá 3,2 bilhões.

Segundo o Banco Mundial, três bilhões de pessoas vivem nas áreas rurais dos países em desenvolvimento, representando 75% da população mais pobre do mundo.  Destas, 2,5 milhões moram no campo. 

Ditado

"Se as cidades forem destruídas e os campos forem conservados, as cidades ressurgirão; mas se queimarem os campos e conservarem as cidades, estas não sobreviverão."  Benjamin Franklin (1706-1790)



Revolução verde

O agrônomo Norman Borlaug, norte-americano nascido em 1914, é tido como o "pai" da Revolução Verde. Em 1970, recebeu o Prêmio Nobel da Paz.



Novo caipira

O cooperativismo se fortalece, o campo se urbaniza. Acaba a solidão da agricultura de subsistência. Nasce o novo "caipira", o moderno agricultor.

A modernização da agricultura brasileira foi impulsionada fortemente a partir de 1967, com a criação do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) e dos incentivos fiscais.

Negócios que se originam da terra tornam-se mais modernos, eficientes e competitivos. O valor da produção relacionada ao agronegócio movimentou, em 2007, 296,4 bilhões de dólares, representando 23,5% do PIB brasileiro.
 



Embalagens de agrotóxicos

O Brasil é o campeão mundial no recolhimento de embalagens vazias de agrotóxicos, com 90% do volume distribuído no campo.

Existem 264 postos de recolhimento, administrados pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (InpEV), entidade constituída pelas 76 empresas do setor.

O recipiente de agrotóxico reciclado vira conduíte para fiação elétrica, saco de lixo hospitalar e tubos corrugados. Recentemente, uma fábrica (Campo Limpo), montada em Taubaté, tenciona fechar o ciclo, produzindo embalagens de agrotóxicos com base em embalagens usadas.




Colaboração

"O atual modelo do agronegócio, aberto a concorrência externa e em competição com grandes conglomerados, exige a profissionalização do agricultor, hoje quase um investidor, ou "player" no jargão dos negócios. Tamanha é a "engenharia" nele contida que já leva até médios produtores ao mundo dos mercados futuros, na busca de absorver a cultura do "hedge", uma espécie de trava de preços, largamente utilizada pelos produtores e compradores de commodities, para travar preços da mercadoria a ser entregue no futuro a preços conhecidos hoje, fugindo da voraz volatilidade internacional de cotações que nos ronda. Dentro do mercado de futuros há uma estrutura ainda mais complexa, chamada mercado de opções, que pode originar operações bastante interessantes, seja para uma proteção adicional ou para arriscar mais. Nesse sentido, em iniciativa inédita, a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo até já ensaiou um programa de financiamento de compra de opções (acredito que PUTs - venda) para permitir que o pequeno agricultor se beneficie dessa estrutura também. Interessantíssimo!" 

Ricardo Buso
(ricardobuso@coreconsp.org.br):